terça-feira, 4 de setembro de 2012

ENEATIPO VII. AMOR-PRAZER (Claudio Naranjo)



Resulta oportuno uma vez mais continuar nossa exposição com o sétimo eneatipo, já que se trata igualmente de um caráter sedutor e carinhoso. Só que sua forma de sedução é um pouco diferente e diferente é também sua forma de amar. A pessoa auto-indulgente necessita antes de tudo de um amor indulgente e, como aprecia não ser exigido e que não sejam postos limites, também oferece ao outro permissividade; tanto é assim que la Bruyére, em sua contemplação dos caracteres humanos, chamou a atenção sobre um que parece empenhar-se em cultivar no outro seus vícios e enaltecê-los.

Se o amor ideal que o orgulhoso tanto busca como oferece é um amor-paixão, o ideal de amor do guloso é mais suave, tranqüilo e a salvo de problemas. Um amor agradável que busca o agrado e que poderia chamar-se um “amor galante”, em associação com a vida cortesã da época de Fragonard e a corte de Luis XIV. Vem ao caso citar o que disse Hipólito Taine ao comparar esta forma de amor com aquela exaltada por Boccaccio:

“Boccaccio leva a sério o prazer; a paixão para ele, além de física, é veemente, constante inclusive, freqüentemente rodeada de acontecimentos trágicos e assaz medíocre para divertir. Nossas fábulas são alegres de maneiras muito distintas. O homem busca nelas a diversão, não o desfrute, é jocoso e não voluptuoso, guloso e não glutão. Toma o amor como um passatempo, não como uma embriaguez. É fruto bonito que colhe, que saboreia e que abandona."

Pode-se dizer que a psicologia do EVII tende a uma confusão entre o amor e o prazer – e
portanto entre o amor e a não interferência na satisfação dos desejos. Porém a expressão amor-
prazer não evoca plenamente o fenômeno do amor tão leviano deste caráter amável e jovial que
nem quer ser um peso para o outro, nem receber o peso de ninguém. Bem se poderia falar
alternativamente de um amor-comodidade, o que nos convida a evocar tanto o aspecto grato e
aprazível desta forma de vida amorosa como de sua limitação.

Uma ilustração da expressão menos que ideal de tal amor-comodidade nos é proporcionado
por um chiste carioca – o que me parece apropriado em vista do espírito guloso do Rio de Janeiro -:
uma mulher indignada reclama ao seu marido dizendo-lhe que a empregada está grávida. O marido
contesta: “Isto é problema dela.” A mulher insiste: “Mas você a engravidou!” Ele replica: “Isto é
problema meu.” “E eu, como fico?” Torna a mulher. O marido, despreocupadamente responde: “Isto
é problema seu!”
Que um buscador de prazer bata em retirada diante da pessoa ou situação que anuncia
aborrecimentos, compromissos, obrigações sérias ou restrições é, seguramente, um dos fatores que
torna o amor guloso um amor instável, sempre exploratório: sabemos que tudo isto aumenta à
medida que as relações se prolongam; porém não é o único fator, posto que a personalidade do
guloso é, por si, curiosa e exploratória, e sempre o distante lhe parece mais atrativo que o que está
próximo.
Precisamente a dificuldade de satisfazer-se no aqui e agora do mundo real é outro problema
importante na vida amorosa dos “orais otimistas”, que constantemente os empurra para o ideal, o
imaginário, o futuro, o remoto. Pensam que é o desejo o que os aliena do presente, porém é
duvidoso que isto seja mais que uma aparência subjetiva: mais seguramente é uma implícita
insatisfação que motiva sua contínua busca pelo diferente. E dificilmente o ideal por uma suavidade
completamente indulgente que busca o guloso pode acontecer na experiência real pouco além do
período de encantamento de uma relação nova. A vida tem seus problemas e, no mundo físico, todo
cômputo deve tomar em consideração o atrito. O amor-prazer busca relações sem atritos e sabe
encontrá-las, só que em escassa medida podem chamar-se relações. Isto é ilustrado
eloqüentemente por desenho de William Steig que apesar de não se referir ao amor em si, trata da
relação humana.
Existe no EVII uma atitude amistosa generalizada. Trata-se do indivíduo que vai ao
restaurante e, rapidamente conhece o garçom ou a cozinheira; conhece também as pessoas do
mercado e entra em conversação facilmente. Sua atitude igualitária contribui para isto e é parte de
seu caráter amável, simpático e sedutor. Qual é a base disto? Camaradagem? Existe um aspecto . exploratório e, ademais, uma busca de novidades e de experiências, uma busca de possibilidades,
de marketing, por parte de quem está sempre procurando promover-se. Lembra o homem de
negócios que busca um mercado, e seja quem for que encontre, quer conhecer a situação para ver
se descobre oportunidades. Também destaca o aspecto de jogo: como é uma pessoa lúdica,
aproxima-se do outro como faz uma criança em relação a alguém com quem pode brincar.
Pode-se entender a base desta não-relação a partir da informação que nos oferece o
eneagrama sobre este eneatipo; um eneatipo (EVII) que se relaciona com os anti-sociais (EVIII) e
também com os ensimesmados e distantes (EV). Na medida em que o guloso se parece com o
luxurioso, vai pela vida como Don Juan, em busca de uma presa, e por mais que se apresente como
um galã, leva dentro de si o aproveitador e, também, um esquizóide mais interessado em si mesmo
do que no outro. Esta outra forma de egoísmo seria inaceitável para os demais se não fosse
compensada por uma dose ao menos equivalente de generosidade galante.
Assim como o guloso é, em geral, um especialista em tornar aceitáveis os seus desejos,
também é certo que no terreno específico do amor uma pessoa com este caráter tem pouca
dificuldade em fazer-se conceder seus gostos – mesmo quando representem sacrifícios e saiam do
convencional, como é o caso da infidelidade. Lembro-me de uma historieta de Quino que
representava um personagem com características fisionômicas típicas de um charlatão, em seu
consultório de médico rodeado de diplomas. Uma anciã que tinha vindo consultá-lo
(presumidamente por um mal cardíaco) é testemunha das instruções que dá para sua secretária:
“Por favor, se minha mulher ligar, diga que se comunique com minha senhora para que combinem
com minha esposa o aniversário dos meninos.” Na vinheta seguinte se vê que a velha senhora
passou muito mal.
Na discussão que se faz dos traços do caráter narcisista no DSM-III põe-se em relevo o
entitlement, que poderia traduzir-se por um sentir-se com direitos de talento, direitos de
superioridade. Porém, a superioridade que o EVII persegue em uma relação amorosa é diferente
daquela dos que vão pela vida como pessoas importantes e assumem um papel de autoridade.
Neste caso trata-se de uma importância mais sutil: não é que espere ser obedecido, mas escutado e
reconhecido como alguém que está inteirado. O homem pode esperar que a mulher seja seu público
por exemplo e, igualmente, ocorre com um pai em relação ao seu filho. Correlacionado à
necessidade do charlatão de ser ouvido está o fato de que naturalmente não sabe ouvir, e pode ser
que ele mesmo não se aperceba disto, já que oferece grande empatia em sua atitude atenta.
Também em matéria de paternidade, o amor dos auto-indulgentes é menor do que aparenta ser,
devido ao seu talento persuasivo e seu encanto. Um pai pode apenas estar presente em seu lugar e
fazer-se querer, no entanto, através de presentes e sorrisos, de modo que seus filhos não se
apercebam de sua ausência até estarem crescidos. Neste caso, parte de sua oferenda amorosa
será a permissividade – só que às vezes os filhos chegam a percebê-la como um não querer
incomodar-se e intuem que se sentiriam mais queridos se lhes fossem impostos limites. Vejamos
agora como é, nos encantadores, a distribuição da energia psíquica entre as três
correntes amorosas que vimos anteriormente.
A hierarquia entre os três amores é, no geral, um pouco diferente do caso dos orgulhosos.
Enquanto que naqueles o amor pelo divino se vê praticamente eclipsado pelo amor a si mesmo e o
amor ao outro, nos gulosos acontece mais freqüentemente uma orientação religiosa e, ainda
quando este não é o caso, pode-se falar de um amor ao ideal que corresponde ao âmbito do amor
ao divino na forma mais ampla que entendo este termo.
Precisamente a religiosidade ou os afãs espirituais podem constituir um escape para as
pessoas com este caráter, pois não apenas as leva a desatender o imediato e o possível em troca
do remoto e impossível, como também por uma dificuldade em matéria de disciplina e uma limitada
capacidade de encarar-se com as incômodas profundidades da própria psiquis, freqüentemente os
torna amateurs que se amparam na espiritualidade sem entrar num processo de transformação
profunda.
Com respeito ao amor por si mesmo, a auto-indulgência do EVII é algo como a de um pai
acomodado e sedutor mais do que a de um bom amigo de si mesmo. Porém naturalmente o amor-
prazer é um intento de ressarcir-se ante um sentimento mais profundo de privação (como indica o
movimento entre o EV e o EVII no eneagrama). Busca-se o prazer justamente para fugir do
incômodo psicológico da angústia e da culpa e, na mesma medida, foge-se do próprio desamor e da
auto-rejeição.
O amor-dar, como já explicado, é neste caráter, tanto como no anterior, elemento de
sedução. Pode-se dizer, portanto, que é uma amabilidade e uma disponibilidade estratégicas. Bem
as pintou La Fontaine em suas fábulas da raposa, que se mostra sempre amável com os objetos de
seu desejo. Podemos também falar de um amor oportunista. Como ilustração deste tipo pode servir
o título que um humorista deu a um de seus livros: Al patrimonio por el matrimonio. (Ao patrimônio
pelo matrimônio.)
(Cláudio Naranjo)

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